uma dor aguda que me espeta a lombar
o lombo do burro de carga
o jegue vendido a R$0,50 na roça
carrega o menino nas anca
carrega na barriga um bolo todo cimento
(a concretude excessiva da política,
das políticas, das politicagens)
carrega na cabeça a lata dágua fria - a sua e a dos outros
que dá um banho em qualquer sonho que ainda esteja a vagar por aí
um grito acorda! na marra
de um desmaio, de uma convulsão de ano-novo
- já acordei mesmo? -
há que entender que não
que não há acordar
que não há acordo
que naõ há nem um pobre coitado de um jegue barato
a lhe oferecer humilde e humilhantemente o lombo animal
e que o caminho é todo a pé
de ferida e areia quente e folhas secas na memória
e uma dor ciática a lhe desconcertar
agora penso que estou cansada...